conhecidos pela rigidez e por perguntas capciosas como “se você nasceu no brasil, por que não fala espanhol?”, os funcionários da imigração espanhola combatem a injusta fama de esnobes e implicantes com atenção e cuidado que remetem ao carinho e ao amparo de um coração materno.
sem se deixar abalar pela constante má interpretação de seus ríspidos inquéritos, os vigilantes alfandegários mantêm, com firmeza, o compromisso de garantir que nenhum visitante do país ibérico durma ao relento ou se pegue obrigado a comer no mcdonalds sete vezes por semana.
atentos a táticas covardes de profissionais do disfarce, estes guardiões fronteiriços muitas vezes se veem na obrigação de confinar supostas velhinhas indefesas em salas de interrogatório para melhor avaliação de identidade e intenções, mas enfrentam duras críticas por serem facilmente ludibriados por rastafaris que tomam um banho caprichado e estreiam camisetas por ocasião do previsível encontro.
o sacrificante fardo de se ter a paranoia, a arrogância e a curiosidade em relação ao itinerário de completos desconhecidos como instrumento de trabalho acaba levando muitos destes servidores limítrofes a dedicar os últimos dias suas vidas ao desenvolvimento de incessantes teorias conspiratórias, ou trabalhando como pessoa que fica na porta das vans gritando “rocinha? rio das pedras?”.
de todas as modalidades de greve, a de fome é, decerto, a mais intrigante. ao contrário do que o nome possa sugerir, a greve de fome não implica na interrupção total ou parcial da vontade de comer de um indivíduo ou grupo, mas, sim, no cultivo do apetite, com contornos masoquistas, por meio da não-alimentação deliberada.